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Biomarcadores Plasmáticos no Alzheimer: Entenda os Exames

Entenda como p-tau217, Aβ42/Aβ40 e NFL no sangue podem auxiliar na investigação do Alzheimer e de outras doenças neurodegenerativas.

BIOLOGIA MOLECULAR E BIOTECNOLOGIA

Ariéu Azevedo Moraes

8/14/20267 min ler

Biomarcadores plasmáticos no Alzheimer: como os exames de sangue estão transformando o diagnóstico
Biomarcadores plasmáticos no Alzheimer: como os exames de sangue estão transformando o diagnóstico

Biomarcadores plasmáticos no Alzheimer: como os exames de sangue estão transformando o diagnóstico

A investigação da Doença de Alzheimer está passando por uma transformação importante. Biomarcadores que antes dependiam principalmente da análise do líquido cefalorraquidiano (LCR) ou de exames de imagem especializados, como a tomografia por emissão de pósitrons (PET), começam a ser avaliados também por meio de amostras de sangue.

Entre os biomarcadores plasmáticos que mais têm chamado a atenção estão o p-tau217 e a razão Aβ42/Aβ40, capazes de fornecer informações relacionadas aos processos biológicos característicos da Doença de Alzheimer.

Mais do que a chegada de novos exames ao laboratório, essa evolução representa uma mudança na maneira como a própria doença começa a ser investigada.

O que acontece no cérebro na Doença de Alzheimer?

A Doença de Alzheimer está relacionada a alterações biológicas que podem começar muitos anos antes de manifestações clínicas mais evidentes.

Dois processos recebem especial atenção.

Um deles é o acúmulo anormal de beta-amiloide (Aβ), associado à formação de placas amiloides no cérebro.

Outro envolve alterações da proteína tau, incluindo sua fosforilação e posterior formação de agregados e emaranhados neurofibrilares.

Esses processos fazem parte da base biológica utilizada atualmente para caracterizar a doença.

Isso é importante porque a compreensão moderna do Alzheimer está deixando de considerar apenas manifestações clínicas, como perda de memória e alterações cognitivas, para incorporar também evidências biológicas da doença.

Uma nova forma de compreender o diagnóstico do Alzheimer

Em 2024, um grupo de trabalho da Alzheimer’s Association publicou critérios revisados para diagnóstico e estadiamento da Doença de Alzheimer.

Uma das mudanças conceituais mais importantes foi reforçar a definição da doença a partir de sua biologia, e não exclusivamente pela presença de uma síndrome clínica.

Os critérios incorporam avanços recentes dos biomarcadores e procuram aproximar conhecimentos desenvolvidos na pesquisa da utilização na assistência clínica.

Isso não significa que sintomas, história clínica ou avaliação cognitiva tenham perdido importância.

Significa que hoje é possível obter informações objetivas sobre determinados processos biológicos associados à doença ainda em vida.

Como o Alzheimer é investigado?

A investigação de uma pessoa com suspeita de comprometimento cognitivo é um processo que pode envolver diferentes ferramentas.

Entre elas estão a avaliação clínica, história do paciente, testes cognitivos e neuropsicológicos, exames laboratoriais destinados inclusive à investigação de outras possíveis causas de alterações cognitivas, métodos de imagem estrutural e, quando indicados, exames específicos para biomarcadores da Doença de Alzheimer.

Entre os métodos utilizados para avaliação da patologia associada ao Alzheimer estão os biomarcadores presentes no líquido cefalorraquidiano e exames como o PET amiloide.

Essas ferramentas têm grande importância, mas apresentam desafios relacionados a fatores como invasividade, custo, infraestrutura e disponibilidade.

É nesse cenário que os biomarcadores sanguíneos ganham relevância.

O que são biomarcadores plasmáticos para Alzheimer?

Um biomarcador é uma característica biológica mensurável capaz de fornecer informações sobre determinado processo que ocorre no organismo.

No caso da Doença de Alzheimer, diferentes biomarcadores podem fornecer informações relacionadas à deposição de beta-amiloide, alterações da proteína tau e outros processos associados à neurodegeneração.

A possibilidade de avaliar alguns desses biomarcadores no plasma é particularmente interessante porque utiliza uma amostra obtida por coleta de sangue.

Isso abre perspectivas para tornar determinadas etapas da investigação mais acessíveis e escaláveis quando comparadas a métodos mais invasivos ou de infraestrutura altamente especializada.

Mas nem todo biomarcador sanguíneo possui a mesma finalidade ou desempenho.

Por isso, é fundamental conhecer qual marcador está sendo utilizado, qual metodologia analítica foi empregada e qual é a população para a qual aquele teste foi validado.

p-tau217: por que esse biomarcador ganhou tanta atenção?

Entre os biomarcadores sanguíneos estudados atualmente, a tau fosforilada na treonina 217, ou p-tau217, tornou-se um dos principais destaques.

Um estudo publicado no JAMA Neurology avaliou um imunoensaio plasmático de p-tau217 em diferentes coortes.

Os pesquisadores observaram que o teste apresentou elevada capacidade para identificar alterações relacionadas às patologias beta-amiloide e tau, com desempenho comparável ao observado com biomarcadores do líquido cefalorraquidiano em determinadas aplicações.

O estudo também demonstrou que o marcador foi capaz de identificar mudanças longitudinais, inclusive em fases pré-clínicas.

Esses resultados ajudam a explicar o crescente interesse pelo p-tau217 na investigação biológica da Doença de Alzheimer.

E a razão Aβ42/Aβ40?

Outro biomarcador relevante é a razão entre beta-amiloide 42 e beta-amiloide 40 — Aβ42/Aβ40.

A análise dessa relação fornece informações associadas à patologia amiloide.

Um estudo publicado em 2024 no JAMA Neurology investigou a utilização conjunta de p-tau217 e Aβ42/Aβ40 em indivíduos sem comprometimento cognitivo.

Os resultados indicaram que a combinação desses biomarcadores pode contribuir para predizer o desenvolvimento da patologia beta-amiloide em pessoas que apresentavam níveis iniciais ainda abaixo dos critérios tradicionais de positividade.

Essa descoberta é especialmente interessante para a pesquisa sobre fases muito precoces da doença e para o desenvolvimento de estratégias futuras de prevenção e intervenção.

É importante, entretanto, diferenciar resultados de pesquisa em pessoas assintomáticas das indicações atualmente recomendadas para utilização clínica.

Um exame de sangue já pode diagnosticar Alzheimer?

A resposta exige cuidado.

Não se deve considerar qualquer exame sanguíneo para Alzheimer como um teste diagnóstico isolado e aplicável indiscriminadamente à população.

Por outro lado, também já não é correto tratar todos os biomarcadores sanguíneos apenas como ferramentas experimentais.

Os critérios revisados da Alzheimer’s Association incorporam biomarcadores de alta precisão dentro da estrutura biológica da doença.

Além disso, uma diretriz clínica publicada pela Alzheimer’s Association em 2025 estabeleceu critérios de desempenho para utilização de biomarcadores sanguíneos em pessoas com comprometimento cognitivo objetivo atendidas em serviços especializados.

Segundo a diretriz, testes que apresentem sensibilidade igual ou superior a 90% e especificidade igual ou superior a 75% podem ser utilizados como testes de triagem.

Quando apresentam sensibilidade e especificidade iguais ou superiores a 90%, determinados testes podem atuar como substitutos do PET amiloide ou de biomarcadores do LCR dentro desse contexto clínico especializado.

Isso representa uma mudança significativa.

Mas existe uma ressalva fundamental: nem todos os testes disponíveis comercialmente alcançam esses níveis de desempenho.

Por isso, metodologia, validação, indicação clínica e interpretação continuam sendo fundamentais.

Então podemos fazer rastreamento de Alzheimer em pessoas saudáveis?

Esse é outro ponto que exige cautela.

A existência de biomarcadores capazes de detectar alterações precoces não significa que toda pessoa sem sintomas deva realizar esses exames.

A aplicação clínica precisa considerar indicação, desempenho do teste, características do paciente e consequências da informação obtida.

Resultados provenientes de estudos realizados em indivíduos cognitivamente normais são extremamente importantes para compreendermos a história natural da doença e desenvolvermos futuras estratégias de prevenção.

Entretanto, evidência científica em pesquisa e recomendação para rastreamento populacional são questões diferentes.

O avanço tecnológico precisa caminhar junto com critérios clínicos adequados.

O que muda para o laboratório clínico?

Existe uma transformação particularmente interessante para a Medicina Laboratorial.

Estamos falando de informações relacionadas a processos extremamente complexos que acontecem no sistema nervoso central sendo investigadas por meio de uma amostra presente diariamente nos laboratórios: o sangue.

Isso pode ampliar o papel da Medicina Laboratorial na jornada das doenças neurodegenerativas.

Mas quanto mais sofisticado é o biomarcador, maior deve ser nossa preocupação com todo o processo que antecede o resultado.

Identificação correta do paciente, preparo, coleta, tipo de tubo, processamento, centrifugação, conservação, transporte, estabilidade da amostra, metodologia analítica e rastreabilidade deixam de ser detalhes operacionais.

Fazem parte da confiabilidade do resultado.

A evolução dos biomarcadores não diminui a importância da fase pré-analítica.

Ela aumenta a responsabilidade sobre ela.

Do resultado laboratorial ao cuidado do paciente

Outro desafio surge depois que o resultado fica pronto.

Como comunicar uma informação tão complexa?

Um paciente pode encontrar expressões como “p-tau217”, “Aβ42/Aβ40”, “positivo para amiloide” ou “biomarcador compatível” sem compreender exatamente o que aquilo representa.

É justamente por isso que inovação diagnóstica precisa caminhar junto com letramento em saúde.

O resultado laboratorial não existe isoladamente.

Ele faz parte de uma jornada que envolve paciente, profissionais de saúde, laboratório, contexto clínico e tomada de decisão.

Informação também faz parte do cuidado

Entender exames, procedimentos e informações relacionadas à saúde pode ajudar o paciente a participar de maneira mais consciente da própria jornada de cuidado.

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Estamos diante de uma nova fronteira da Medicina Laboratorial

Durante décadas, grande parte da evolução dos laboratórios esteve associada à automação, produtividade, sensibilidade analítica e redução do tempo necessário para liberar resultados.

Essa evolução continua., mas estamos entrando também em outra etapa.

Amostras relativamente simples começam a revelar informações biológicas cada vez mais complexas.

Os biomarcadores sanguíneos relacionados à Doença de Alzheimer representam muito bem essa transformação.

O p-tau217 já demonstra elevado desempenho em estudos clínicos. A relação Aβ42/Aβ40 acrescenta informações sobre a patologia amiloide. Novas combinações, metodologias e algoritmos continuam sendo investigados.

Ao mesmo tempo, critérios e diretrizes começam a estabelecer em quais situações essas ferramentas podem migrar da pesquisa para a prática clínica.

Talvez, portanto, a principal pergunta para a Medicina Laboratorial não seja mais:

“Será possível investigar o Alzheimer pelo sangue?”

A ciência já mostrou que o sangue pode fornecer informações relevantes sobre a biologia da doença.

A pergunta que começa a surgir é outra:

Como vamos incorporar essa nova geração de biomarcadores à prática clínica com qualidade, responsabilidade e interpretação adequada?

Ariéu Azevedo Moraes
Biomédico | Especialista em Gestão laboratorial | Especialista em Perícia Judicial e Extrajudicial
Fundador da Pipeta e Pesquisa
🔬 Descomplicando as análises clínicas com interpretação e prática aplicada

Referências

  1. Jack CR Jr, Andrews JS, Beach TG, et al. Revised criteria for diagnosis and staging of Alzheimer's disease: Alzheimer's Association Workgroup. Alzheimers Dement. 2024;20(8):5143-5169. doi:10.1002/alz.13859.

  2. Ashton NJ, Brum WS, Di Molfetta G, et al. Diagnostic accuracy of a plasma phosphorylated tau 217 immunoassay for Alzheimer disease pathology. JAMA Neurol. 2024;81(3):255-263. doi:10.1001/jamaneurol.2023.5319.

  3. Palmqvist S, et al. Alzheimer's Association Clinical Practice Guideline on the use of blood-based biomarkers in the diagnostic workup of suspected Alzheimer's disease within specialized care settings. Alzheimers Dement. 2025. doi:10.1002/alz.70535.

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