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G6PD e malária: por que esse exame é essencial no tratamento e no controle da hemólise
Entenda a relação entre G6PD e malária, as áreas endêmicas no Brasil, os medicamentos utilizados, a notificação compulsória e por que esse exame é importante para avaliar o risco de hemólise.
PARASITOLOGIA
Ariéu Azevedo Moraes
6/28/20266 min ler


G6PD e malária: por que esse exame é essencial no tratamento e no controle da hemólise?
A relação entre G6PD e malária tem ganhado cada vez mais importância na prática clínica, especialmente quando falamos do tratamento da malária por Plasmodium vivax. Embora muitas pessoas associem o exame de G6PD apenas a quadros hematológicos, seu principal uso hoje, nesse contexto, está ligado à segurança terapêutica.
Isso acontece porque medicamentos como primaquina e tafenoquina, usados na chamada cura radical da malária vivax, podem desencadear hemólise em pessoas com baixa atividade da enzima glicose-6-fosfato desidrogenase. Em outras palavras, o exame de G6PD não é solicitado para diagnosticar a malária, mas para ajudar a decidir como tratar com mais segurança, prevenindo complicações relacionadas à destruição das hemácias.
O que é G6PD e qual é seu principal uso na malária?
A glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) é uma enzima fundamental para proteger as hemácias contra o estresse oxidativo. Quando sua atividade está reduzida, os glóbulos vermelhos tornam-se mais suscetíveis à destruição, principalmente diante de certos medicamentos, infecções e outras condições que aumentam o estresse oxidativo.
Na malária, esse exame tem um papel muito prático: avaliar o risco de hemólise antes do uso de fármacos como primaquina e tafenoquina. Esse cuidado é especialmente importante porque essas drogas atuam nas formas hepáticas do parasito e ajudam a evitar recaídas, mas podem ser perigosas em pessoas com deficiência ou baixa atividade de G6PD.
Por isso, o principal uso desse exame no cenário da malária é simples e decisivo: proteger o paciente durante o tratamento.
O que é malária e por que ela ainda é relevante no Brasil?
A malária é uma doença infecciosa causada por protozoários do gênero Plasmodium e transmitida pela picada da fêmea infectada do mosquito Anopheles. No Brasil, as espécies de maior importância são Plasmodium vivax e Plasmodium falciparum, sendo o P. vivax o mais frequente.
Essa predominância do P. vivax ajuda a entender por que o exame de G6PD ganhou tanta relevância. Isso porque, diferentemente do P. falciparum, a malária vivax exige atenção especial com a cura radical, já que o parasito pode permanecer em formas hepáticas e causar novos episódios.
Clinicamente, a doença costuma cursar com febre, calafrios, sudorese, cefaleia, mialgia, fraqueza e mal-estar. Como esses sintomas podem ser inespecíficos no início, o contexto epidemiológico e o histórico de deslocamento do paciente são fundamentais para levantar a suspeita.
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Quais são as áreas endêmicas de malária no Brasil?
No Brasil, a malária está concentrada principalmente na Amazônia Legal, considerada a área endêmica da doença no país. Essa região compreende os estados do Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Mato Grosso e Maranhão.
É nessa faixa territorial que se concentram praticamente todos os casos autóctones do país. Já fora da região amazônica, a maior parte dos casos é importada, embora ainda exista transmissão residual em algumas áreas, especialmente em regiões associadas à Mata Atlântica.
Esse dado é muito importante para a prática clínica e laboratorial. Em áreas não endêmicas, a malária pode não ser a primeira hipótese diagnóstica, o que pode atrasar o reconhecimento da doença e o início do tratamento adequado.
Quais medicamentos são usados no tratamento da malária?
O tratamento da malária depende da espécie do parasito, da gravidade do caso, da idade do paciente, da presença de gestação e de outras condições clínicas associadas.
Nos casos de Plasmodium vivax, o tratamento tradicional envolve cloroquina para as formas sanguíneas e primaquina para a cura radical. Mais recentemente, a tafenoquina passou a integrar esse arsenal terapêutico em situações específicas, oferecendo a vantagem de um esquema mais curto e potencialmente melhor adesão.
Nos casos de Plasmodium falciparum, o tratamento segue outro racional, com esquemas que podem incluir combinações como artesunato + mefloquina ou arteméter + lumefantrina, conforme o protocolo clínico vigente e o perfil do paciente.
É justamente no tratamento da malária vivax que o G6PD ganha destaque. Isso porque primaquina e tafenoquina são medicamentos eficazes, mas com potencial de provocar hemólise em indivíduos com baixa atividade enzimática.
A malária é doença de notificação compulsória?
Sim. A malária é uma doença de notificação compulsória no Brasil, o que significa que casos suspeitos e confirmados devem ser registrados obrigatoriamente pelos serviços de saúde.
Na região amazônica, a vigilância utiliza de forma regular o Sivep-Malária. Já na região extra-amazônica, a notificação ganha ainda mais urgência, pois a ocorrência da doença foge ao padrão esperado local e exige resposta rápida da vigilância epidemiológica.
Isso reforça que a malária não é apenas uma doença infecciosa individual. Ela também é um evento importante de saúde pública, que exige rastreamento, monitoramento territorial e acompanhamento sistemático.
Onde o exame de G6PD entra na conduta clínica?
O exame de G6PD entra principalmente na hora de definir a cura radical da malária vivax. Como a primaquina e a tafenoquina podem desencadear hemólise em pacientes com baixa atividade da enzima, a testagem ajuda a orientar o tratamento mais seguro.
Na prática, isso significa que o exame pode mudar a conduta. Ele ajuda a identificar pacientes que podem seguir um esquema convencional e aqueles que precisarão de adaptação terapêutica, maior monitoramento ou abordagem diferenciada.
Mais do que um dado complementar, o G6PD funciona como uma ferramenta de prevenção de evento adverso.
Por que o exame de G6PD é utilizado em infecções?
Essa é a principal ideia para fechar o raciocínio: o exame de G6PD não é utilizado para diagnosticar a infecção, mas para verificar uma condição do paciente que pode interferir diretamente na segurança do tratamento e na evolução clínica.
No contexto da malária, isso faz ainda mais sentido porque a própria doença pode cursar com anemia e destruição de hemácias. Quando se soma a isso o uso de medicamentos com potencial oxidante, o risco de hemólise passa a ser uma preocupação real.
Por isso, o G6PD é utilizado em infecções como uma estratégia de controle e verificação de uma condição aguda ou crônica relacionada à hemólise. Em resumo, ele ajuda a responder uma pergunta prática e decisiva: esse paciente tem risco aumentado de hemólise diante da infecção e do tratamento proposto?
Conclusão
O principal uso do exame de G6PD na malária é tornar o tratamento mais seguro, especialmente nos casos por Plasmodium vivax, em que a cura radical depende de medicamentos como primaquina e tafenoquina. Em um país como o Brasil, onde a doença permanece concentrada na Amazônia Legal e segue como agravo de notificação compulsória, essa testagem tem valor clínico, laboratorial e epidemiológico.
Mais do que identificar uma deficiência enzimática, o exame ajuda a prevenir complicações, orientar condutas e individualizar o cuidado. Por isso, no contexto das infecções, ele não entra como marcador do agente infeccioso, mas como ferramenta para avaliar risco de hemólise e proteger o paciente durante a abordagem terapêutica.
Ariéu Azevedo Moraes
Biomédico | Especialista em Gestão laboratorial
Fundador da Pipeta e Pesquisa
🔬 Descomplicando as análises clínicas com interpretação e prática aplicada
Referências
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Guia de tratamento da malária no Brasil [Internet]. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2026 [cited 2026 Jun 28]. Available from: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_tratamento_malaria_brasil_3ed.pdf
Brasil. Ministério da Saúde. Situação epidemiológica da malária [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2026 [cited 2026 Jun 28]. Available from: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/m/malaria/situacao-epidemiologica-da-malaria
Brasil. Ministério da Saúde. Notificação compulsória [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2026 [cited 2026 Jun 28]. Available from: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/notificacao-compulsoria
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