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Glúten e Testes Imunológicos: Quais Exames Identificam Doença Celíaca e Resposta Imune
Entenda a relação entre glúten e testes imunológicos, como anti-transglutaminase, anti-endomísio e IgA total. Saiba quando esses exames são indicados, como interpretar os resultados e por que o consumo de glúten interfere diretamente no diagnóstico.
ATUALIDADES
Ariéu Azevedo Moraes
1/21/20265 min ler


Glúten e Testes Imunológicos: O Que os Exames Revelam Sobre Doença Celíaca e Outras Respostas Imunes
Quando o alimento ativa o sistema imune
O glúten está presente em alimentos amplamente consumidos no Brasil, como pães, massas e produtos à base de trigo, centeio e cevada. Para a maioria das pessoas, ele não representa risco. No entanto, em indivíduos geneticamente predispostos, o glúten pode desencadear respostas imunológicas específicas, capazes de provocar lesão intestinal, sintomas sistêmicos e alterações laboratoriais mensuráveis.
É nesse ponto que os testes imunológicos se tornam essenciais. Eles permitem identificar anticorpos específicos, avaliar o estado imunológico do paciente e diferenciar doença celíaca, sensibilidade ao glúten não celíaca e alergia ao trigo, condições que frequentemente são confundidas fora do ambiente técnico.
O que é o glúten do ponto de vista imunológico
O glúten é um conjunto de proteínas, sendo a gliadina a fração mais relevante do ponto de vista imunológico. Em indivíduos suscetíveis, fragmentos de gliadina atravessam a mucosa intestinal e sofrem modificação pela enzima transglutaminase tecidual (tTG).
Essa modificação gera novos epítopos que passam a ser reconhecidos pelo sistema imunológico, ativando linfócitos T e estimulando a produção de autoanticorpos. Esse processo está no centro da doença celíaca, uma enfermidade autoimune sistêmica, e explica por que os testes laboratoriais são tão específicos.
Os testes imunológicos para glúten avaliam a presença de anticorpos específicos associados à doença celíaca, como o anti-transglutaminase tecidual (anti-tTG IgA), o anti-endomísio (EMA IgA) e a dosagem de IgA total. Esses exames identificam a resposta imune desencadeada pelo consumo de glúten e só apresentam resultados confiáveis quando o paciente mantém ingestão regular de glúten antes da coleta.
Doença celíaca: uma doença autoimune detectável no laboratório
A doença celíaca não é uma intolerância simples. Trata-se de uma condição autoimune crônica, associada principalmente aos alelos HLA-DQ2 e HLA-DQ8, em que a ingestão de glúten mantém o sistema imunológico em ativação constante.
Do ponto de vista laboratorial, isso se traduz na produção de anticorpos específicos, detectáveis por métodos imunológicos padronizados. Esses exames são fundamentais tanto para o diagnóstico inicial quanto para o acompanhamento.
Principais testes imunológicos relacionados ao glúten
Anti-transglutaminase tecidual (anti-tTG IgA)
É o exame de primeira linha para rastreio da doença celíaca. Possui alta sensibilidade e especificidade quando o paciente está consumindo glúten.
Valores elevados sugerem fortemente atividade imunológica relacionada ao glúten, especialmente quando associados a sintomas clínicos e alterações histológicas.
Anti-endomísio (EMA IgA)
Apresenta altíssima especificidade, sendo frequentemente utilizado como teste confirmatório. Apesar de mais caro e tecnicamente dependente do método, é extremamente confiável quando positivo.
IgA total sérica
A dosagem de IgA total é indispensável. Pacientes com deficiência seletiva de IgA podem apresentar resultados falsamente negativos nos testes anti-tTG IgA e EMA IgA.
Nesses casos, o laboratório deve indicar testes baseados em IgG, como anti-tTG IgG ou anti-DGP IgG.
Anticorpos anti-peptídeos de gliadina deamidada (anti-DGP IgA/IgG)
São úteis especialmente em:
crianças pequenas
pacientes com deficiência de IgA
situações de dúvida diagnóstica
Esses testes ampliam a capacidade do laboratório de identificar resposta imunológica ao glúten.
Atenção pré-analítica: sem glúten, sem anticorpos
Um dos erros mais comuns na prática clínica e laboratorial é realizar exames imunológicos após a retirada do glúten da dieta. Sem o estímulo antigênico, a produção de anticorpos diminui ou desaparece, levando a resultados falsamente negativos.
Para diagnóstico correto, o paciente deve estar consumindo glúten regularmente por semanas antes da coleta, salvo orientação médica específica. Essa é uma das informações mais importantes que o laboratório pode fornecer ao clínico e ao paciente.
Glúten, alergia ao trigo e sensibilidade não celíaca: o que os testes mostram
Nem toda reação ao glúten é doença celíaca.
Alergia ao trigo: envolve mecanismo IgE mediado, detectável por IgE específica e testes cutâneos.
Sensibilidade ao glúten não celíaca: não apresenta marcadores imunológicos específicos; os testes costumam ser negativos.
O laboratório tem papel central em excluir doença celíaca e alergia IgE, evitando diagnósticos incorretos e dietas restritivas desnecessárias.
Impactos sistêmicos e achados laboratoriais associados
Além dos testes imunológicos, a doença celíaca ativa pode cursar com:
anemia ferropriva
deficiência de vitamina B12 e ácido fólico
hipocalcemia
alterações em enzimas hepáticas
redução de albumina
Esses achados reforçam que o laboratório deve olhar o paciente de forma integrada, não apenas para um marcador isolado.
O papel educativo das análises clínicas
Mais do que liberar resultados, o laboratório atua como agente educativo ao:
orientar sobre preparo e dieta prévia
indicar exames complementares quando há inconsistências
alertar sobre possíveis falsos negativos
ajudar o clínico a interpretar o contexto imunológico
Em doenças relacionadas ao glúten, essa atuação evita anos de sintomas sem diagnóstico.
Concluímos: o glúten deixa pistas claras no sistema imune
Quando o glúten é o gatilho de uma resposta imunológica, o organismo deixa sinais claros — e mensuráveis — no sangue. Os testes imunológicos permitem identificar essas pistas, diferenciar condições semelhantes e orientar condutas seguras.
Entender a relação entre glúten e exames imunológicos é essencial para profissionais de saúde, pacientes e laboratórios que buscam diagnóstico preciso e cuidado baseado em evidências.
No laboratório, o glúten não é opinião — é imunologia aplicada.
Ariéu Azevedo Moraes
Biomédico | Fundador do Pipeta e Pesquisa
Especialista em Gestão Laboratorial
Pipeta e Pesquisa — Descomplicando as Análises Clínicas
Referências
Lebwohl B, Sanders DS, Green PHR. Coeliac disease. Lancet. 2018;391(10115):70–81.
Rubio-Tapia A, Hill ID, Kelly CP, Calderwood AH, Murray JA. ACG clinical guidelines: diagnosis and management of celiac disease. Am J Gastroenterol. 2013;108(5):656–676.
Husby S, Koletzko S, Korponay-Szabó IR, et al. European Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology, and Nutrition guidelines for diagnosing coeliac disease. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2012;54(1):136–160.
Rostom A, Murray JA, Kagnoff MF. American Gastroenterological Association (AGA) Institute technical review on the diagnosis and management of celiac disease. Gastroenterology. 2006;131(6):1981–2002.
Sapone A, Bai JC, Ciacci C, et al. Spectrum of gluten-related disorders: consensus on new nomenclature and classification. BMC Med. 2012;10:13
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