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Indican Urinário: o que é, para que serve e como interpretar o exame
Entenda o que é o Indican urinário, para que serve o exame, sua relação com o metabolismo intestinal e por que não deve ser interpretado isoladamente como disbiose.
BIOQUÍMICA
Ariéu Azevedo Moraes
8/24/20269 min ler


Exame de Indican na urina: o que é, para que serve e o que o resultado significa?
Alterações intestinais podem deixar pistas na urina?
Essa é a ideia por trás de um exame pouco conhecido chamado Indican urinário, também encontrado como indoxil sulfato urinário. O teste ganhou interesse por avaliar um produto relacionado ao metabolismo intestinal do triptofano, aminoácido que pode ser metabolizado por bactérias presentes no trato gastrointestinal.
Por essa razão, o Indican tem sido utilizado em alguns contextos como um possível marcador indireto de alterações da microbiota intestinal, fermentação/putrefação proteica, má absorção ou crescimento bacteriano intestinal.
Mas existe um ponto importante:
Encontrar Indican na urina é biologicamente esperado. Interpretar sua concentração como diagnóstico de “disbiose intestinal” é uma questão muito mais complexa.
Vamos entender o caminho desse composto pelo organismo e o que a ciência permite concluir sobre o exame.
O que é o Indican urinário?
O nome pode causar alguma confusão. No contexto laboratorial, o chamado Indican urinário corresponde principalmente ao indoxil sulfato, uma substância formada a partir do metabolismo do aminoácido triptofano.
Sua formação envolve uma interessante comunicação entre alimentação, microbiota intestinal, intestino, fígado e rins. O indoxil sulfato normalmente é eliminado pelos rins e pode ser encontrado na urina.
Portanto, a presença dessa substância, por si só, não significa doença.
Como o Indican é formado?
Para entender o exame, precisamos acompanhar uma pequena viagem bioquímica.
1. Tudo começa com o triptofano
O triptofano é um aminoácido presente nas proteínas da alimentação. Parte do triptofano disponível no trato gastrointestinal pode ser metabolizada por determinadas bactérias intestinais.
2. As bactérias produzem indol
Algumas bactérias possuem a enzima triptofanase, capaz de converter triptofano em indol. Esse composto pode ser absorvido pela mucosa intestinal e entrar na circulação portal.
3. O fígado transforma o indol
Depois de absorvido, o indol chega ao fígado, onde passa por processos metabólicos que levam à formação de indoxil sulfato.
4. Os rins entram em ação
O indoxil sulfato circulante é eliminado principalmente pelos rins. É justamente esse composto que pode ser detectado e quantificado na urina como Indican urinário.
De forma simplificada:
Proteínas → triptofano → bactérias intestinais → indol → fígado → indoxil sulfato → rins → urina
Essa sequência explica por que o exame despertou interesse como possível indicador indireto da atividade metabólica da microbiota intestinal.
Para que serve o exame de Indican?
Historicamente, o Indican urinário foi utilizado como marcador de processos chamados de putrefação intestinal. A ideia era relativamente simples: uma maior produção bacteriana de indol poderia resultar em maior formação e eliminação de indoxil sulfato pela urina.
Com o avanço dos conhecimentos sobre microbiota intestinal, o exame passou a aparecer novamente em alguns contextos como possível marcador relacionado a:
alterações da microbiota intestinal;
metabolismo bacteriano de proteínas;
má digestão ou má absorção proteica;
constipação;
crescimento bacteriano intestinal.
Algumas publicações contemporâneas ainda discutem o indoxil sulfato urinário como possível marcador não invasivo relacionado à microbiota intestinal.
Entretanto, isso não significa que o exame isoladamente consiga diagnosticar essas condições, e essa distinção é fundamental.
Cuidar também é entender
Exames laboratoriais fazem parte de diferentes momentos do cuidado em saúde. Mas receber um resultado é apenas uma parte do processo, entender por que ele foi solicitado e como se relaciona com o acompanhamento do paciente também é importante.
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Indican positivo significa disbiose intestinal?
Não necessariamente. O termo disbiose descreve alterações na composição ou função da microbiota, mas esse ecossistema é extremamente complexo.
Reduzir toda essa diversidade a um único metabólito urinário pode ser uma simplificação excessiva.
Um estudo clássico que comparou a excreção urinária de Indican com culturas quantitativas do jejuno encontrou correlação fraca entre o marcador e a quantidade de bactérias. Os pesquisadores concluíram que o teste não era adequado para rastrear contaminação bacteriana do intestino delgado. Além disso, a história científica do exame mostra que pessoas saudáveis também podem apresentar quantidades elevadas de Indican urinário.
Portanto:
Indican elevado ≠ diagnóstico automático de disbiose.
Da mesma forma, um resultado normal não permite afirmar que toda a microbiota intestinal esteja em perfeito equilíbrio.
Então por que o Indican pode aumentar?
A quantidade de indoxil sulfato produzida pelo organismo depende de diversas etapas.
Entre elas estão:
Disponibilidade de triptofano
A quantidade e a composição das proteínas da dieta podem influenciar os substratos disponíveis para o metabolismo bacteriano.
Composição da microbiota intestinal
Nem todas as bactérias metabolizam triptofano da mesma maneira.
Trânsito intestinal
Alterações no tempo de permanência do conteúdo intestinal podem modificar as interações entre nutrientes e microrganismos.
Digestão e absorção
A quantidade de substrato que chega às bactérias também pode interferir na produção de metabólitos.
Metabolismo hepático
O indol absorvido precisa ser metabolizado antes da formação do indoxil sulfato.
Função renal
Como o composto é eliminado pelos rins, alterações na função renal modificam sua dinâmica no organismo.
Isso demonstra por que interpretar o exame como uma simples relação entre “alto = intestino ruim” e “baixo = intestino saudável” não representa adequadamente sua fisiologia.
Como é realizado o exame?
O exame utiliza uma amostra de urina, historicamente, diferentes métodos químicos foram desenvolvidos para detectar ou quantificar o Indican urinário.
Um dos métodos clássicos é baseado em reações que produzem alteração de cor, permitindo uma avaliação colorimétrica da presença ou quantidade do composto. Já no início do século XX, métodos baseados em mudança de coloração eram utilizados para avaliar Indican na urina.
Posteriormente, métodos laboratoriais quantitativos e técnicas analíticas mais modernas permitiram estudar o indoxil sulfato com maior precisão. Por isso, o método utilizado pelo laboratório é importante na interpretação do resultado.
Qual urina deve ser coletada?
A orientação pode variar conforme a metodologia adotada pelo laboratório.
Alguns métodos utilizam amostra isolada de urina, enquanto estudos quantitativos historicamente também avaliaram a excreção do composto em urina de 24 horas.
O paciente deve seguir exatamente as instruções fornecidas pelo laboratório responsável pelo exame. Também é importante informar medicamentos, suplementos e condições clínicas relevantes, já que diferentes fatores podem interferir no metabolismo intestinal e na excreção urinária.
O resultado pode aparecer como positivo ou negativo?
Depende do método. Em alguns testes, o resultado pode ser apresentado de maneira qualitativa ou semiquantitativa, baseado na intensidade de uma reação colorimétrica.
Outros métodos podem determinar quantitativamente a concentração ou a excreção de indoxil sulfato.
Por isso, não existe um único valor que possa ser utilizado para interpretar todos os exames chamados “Indican”.
Sempre observe:
método utilizado;
unidade de medida;
tipo de amostra;
intervalo de referência informado pelo laboratório.
Comparar diretamente resultados realizados por metodologias diferentes pode levar a interpretações equivocadas.
Indican é a mesma coisa que exame de urina tipo 1?
Não. O exame de urina tipo 1, também chamado de EAS em muitos locais, avalia diferentes características físicas, químicas e microscópicas da urina, como densidade, pH, proteínas, glicose, hemoglobina, leucócitos e elementos do sedimento urinário.
O Indican é uma determinação específica de um metabólito. Portanto, ele não faz parte obrigatoriamente do exame de urina convencional.
Quando solicitado, deve ser identificado especificamente entre os exames laboratoriais realizados.
Indican é exame para SIBO?
Também não deve ser considerado equivalente. A SIBO — Small Intestinal Bacterial Overgrowth, ou supercrescimento bacteriano do intestino delgado — possui critérios diagnósticos próprios.
Embora tenha sido investigada uma possível relação entre Indican urinário e colonização bacteriana intestinal, estudos demonstraram limitações importantes para utilizar o marcador como teste de rastreamento dessa condição.
Portanto, um Indican elevado não deve ser traduzido automaticamente como diagnóstico de SIBO.
Um exame antigo que voltou a despertar interesse
Existe uma curiosidade interessante na história desse exame. A investigação do Indican urinário não é uma novidade criada pela recente popularização dos estudos sobre microbiota.
Em 1910, um artigo publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA) já descrevia milhares de determinações de Indican urinário utilizando o teste de Jaffé.
Durante o início do século XX, o marcador foi fortemente associado às teorias de “autointoxicação intestinal”.
Com o passar do tempo, porém, pesquisadores começaram a observar resultados que não se encaixavam bem nessa interpretação: indivíduos saudáveis podiam apresentar valores elevados enquanto pessoas com sintomas intestinais podiam apresentar valores menores. O valor clínico atribuído ao teste começou, então, a ser questionado.
Décadas depois, com o desenvolvimento da pesquisa sobre microbioma, metabólitos bacterianos e eixo intestino-organismo, o indoxil sulfato voltou a receber atenção científica.
Mas existe uma diferença importante:
Estudar um metabólito relacionado à microbiota não significa validar automaticamente um teste isolado como diagnóstico de disbiose.
O indoxil sulfato também é estudado na doença renal
Existe outro lado bastante interessante dessa molécula. Na pesquisa relacionada à doença renal crônica, o indoxil sulfato é estudado como uma das chamadas toxinas urêmicas derivadas da microbiota intestinal.
Em pessoas com função renal normal, o composto é eliminado pela urina. Quando a função renal está comprometida, entretanto, pode ocorrer aumento de sua concentração no organismo.
Isso mostra como o mesmo metabólito pode ser estudado em contextos completamente diferentes.
No intestino, sua origem está relacionada ao metabolismo bacteriano do triptofano.
No fígado, ocorre sua transformação.
Nos rins, ocorre parte fundamental de sua eliminação.
O Indican é, portanto, um bom exemplo da integração entre microbiota, metabolismo e função renal.
O exame de Indican é confiável?
A pergunta mais adequada talvez seja:
Confiável para responder qual pergunta?
É possível medir o indoxil sulfato urinário.
O problema está em transformar essa medida isolada em afirmações amplas sobre a saúde intestinal.
Existem estudos investigando sua relação com microbiota e diferentes condições clínicas, inclusive pesquisas recentes avaliando o indoxil sulfato urinário como possível marcador indireto de características da microbiota.
Por outro lado, evidências anteriores demonstraram desempenho insuficiente para utilizá-lo isoladamente como marcador de colonização bacteriana intestinal.
Portanto, resultados devem ser analisados juntamente com:
sintomas;
alimentação;
histórico clínico;
medicamentos e suplementos;
função renal;
outros exames laboratoriais;
métodos diagnósticos específicos quando houver suspeita de uma doença.
Cuidado com a expressão “toxinas intestinais”
Ao pesquisar sobre Indican na internet, é comum encontrar expressões como:
“toxemia intestinal”,
“intestino intoxicado”,
“excesso de toxinas” ou
“teste de putrefação intestinal”.
Esses termos precisam ser interpretados com cautela. Existe uma base bioquímica verdadeira: bactérias intestinais metabolizam triptofano, produzem indol, o organismo o transforma em indoxil sulfato e esse composto pode ser eliminado pela urina.
Mas transformar esse processo fisiológico em uma afirmação genérica de que o organismo está “intoxicado” não é adequado sem contexto clínico e evidências adicionais.
A Medicina Laboratorial precisa separar duas coisas:
o que conseguimos medir e
o que podemos concluir a partir dessa medida.
Nem sempre são a mesma coisa.
Afinal, o que o exame de Indican pode nos dizer?
O Indican urinário é um marcador relacionado ao metabolismo bacteriano intestinal do triptofano e à formação de indoxil sulfato. Sua determinação pode fornecer informações sobre esse processo metabólico específico.
Entretanto, não deve ser interpretado isoladamente como um diagnóstico definitivo de:
disbiose, SIBO, má absorção, “intoxicação intestinal” ou qualquer outra doença gastrointestinal.
Esse cuidado não diminui a importância científica da molécula, pelo contrário.
O indoxil sulfato tornou-se um interessante objeto de pesquisa justamente porque mostra como produtos produzidos a partir da interação entre alimentação e microbiota podem ser absorvidos, metabolizados pelo fígado, circular pelo organismo e finalmente serem eliminados pelos rins.
É quase uma pequena fotografia bioquímica da comunicação entre o intestino e o restante do corpo.
Informação também faz parte do exame
Quando recebemos um resultado laboratorial, a primeira tendência é procurar se ele está “alto” ou “baixo”.
Mas alguns exames exigem uma pergunta anterior:
o que esse marcador realmente consegue demonstrar?
No caso do Indican urinário, sabemos bastante sobre sua origem bioquímica.
Sabemos que está relacionado ao metabolismo bacteriano do triptofano.
Sabemos que pode ser medido na urina.
Mas transformar seu resultado isolado em um diagnóstico completo da microbiota intestinal vai além do que as evidências disponíveis permitem afirmar com segurança.
Na Medicina Laboratorial, um resultado não deve apenas ser medido.
Ele precisa ser compreendido.
Ariéu Azevedo Moraes
Biomédico | Especialista em Gestão laboratorial | Especialista em Perícia Judicial e Extrajudicial
Fundador da Pipeta e Pesquisa
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Referências
Bryan GT. Quantitative studies on the urinary excretion of indoxyl sulfate (indican) in man following administration of L-tryptophan and acetyl-L-tryptophan. Am J Clin Nutr. 1966;19(2):105-112.
Mayer PJ, Beeken WL. The role of urinary indican as a predictor of bacterial colonization in the human jejunum. Am J Dig Dis. 1975;20(11):1003-1009.
Curzon G, Walsh J. A method for the determination of urinary indoxyl sulphate (indican). Clin Chim Acta. 1962;7:657-663.
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