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Beterraba e Nitratos: Como Esse Alimento Modula Óxido Nítrico, Pressão Arterial e Exames Laboratoriais
A beterraba é rica em nitratos, precursores do óxido nítrico. Entenda como esse alimento pode influenciar pressão arterial, desempenho físico e a interpretação de exames laboratoriais, incluindo função renal, marcadores cardiovasculares e metabólicos.
ATUALIDADES
Ariéu Azevedo Moraes
1/8/20265 min ler


O alimento que conversa com os vasos sanguíneos
A beterraba deixou de ser apenas um vegetal tradicional da alimentação brasileira para se tornar protagonista em sucos “funcionais”, estratégias esportivas e recomendações nutricionais voltadas à saúde cardiovascular.
O motivo é bioquímico: ela é uma das principais fontes alimentares de nitratos inorgânicos, substâncias que o organismo converte em óxido nítrico (NO), um potente vasodilatador.
O que nem sempre é discutido é que esse mesmo mecanismo pode interferir em parâmetros fisiológicos avaliados em exames laboratoriais, especialmente aqueles relacionados à pressão arterial, função endotelial, metabolismo energético e função renal.
Nitratos: vilões do passado, aliados do presente
Durante décadas, os nitratos alimentares foram associados quase exclusivamente a riscos, principalmente por sua ligação com conservantes e formação de nitrosaminas em alimentos ultraprocessados.
Hoje, a ciência faz uma distinção clara:
❌ Nitratos de alimentos processados (embutidos, carnes curadas)
✅ Nitratos naturais de vegetais, como beterraba, rúcula e espinafre
Os nitratos da beterraba entram em uma via metabólica benéfica conhecida como via nitrato → nitrito → óxido nítrico, independente da enzima óxido nítrico sintase.
Da beterraba ao óxido nítrico: o caminho bioquímico
Após a ingestão da beterraba, os nitratos (NO₃⁻) presentes no alimento entram na circulação e passam por um processo metabólico bem organizado. Parte desses nitratos é convertida em nitrito (NO₂⁻) por bactérias da cavidade oral, um passo fundamental dessa via alternativa de produção de óxido nítrico. Em seguida, o nitrito é reduzido a óxido nítrico (NO) no ambiente ácido do estômago e também nos tecidos periféricos.
O óxido nítrico atua diretamente sobre o endotélio vascular, promovendo vasodilatação, reduzindo a resistência vascular periférica e melhorando a perfusão tecidual. Como consequência, ocorre uma modulação da pressão arterial, com impacto positivo sobre a função cardiovascular, especialmente em indivíduos com disfunção endotelial ou hipertensão.
Beterraba e pressão arterial: evidência consistente
Diversos estudos mostram que o consumo regular de suco de beterraba está associado à:
redução da pressão arterial sistólica
redução da pressão arterial diastólica
melhora da função endotelial
Esses efeitos costumam aparecer entre 2 e 6 horas após o consumo, com impacto mais evidente em indivíduos hipertensos ou com disfunção endotelial.
📌 Para o laboratório, isso significa que o momento da coleta e o consumo recente de beterraba podem influenciar a interpretação clínica de exames relacionados à pressão e perfusão.
Impactos potenciais nos exames laboratoriais
A beterraba não “altera exames” de forma direta ou patológica, mas pode modular parâmetros fisiológicos que aparecem nos resultados.
1. Função renal (ureia e creatinina)
A vasodilatação induzida por NO pode melhorar temporariamente a perfusão renal, o que pode:
reduzir discretamente a creatinina sérica
melhorar a taxa de filtração glomerular em curto prazo
📌 Em atletas ou indivíduos bem hidratados, isso pode gerar valores levemente mais baixos, sem significado patológico.
2. Hemoglobina e oxigenação
O óxido nítrico:
melhora a distribuição do fluxo sanguíneo
otimiza a entrega de oxigênio aos tecidos
Isso não altera diretamente a hemoglobina, mas influencia a eficiência funcional do sistema cardiovascular, especialmente em testes de esforço e avaliações esportivas.
3. Marcadores cardiovasculares
O consumo regular de beterraba pode contribuir para:
redução indireta de marcadores inflamatórios
melhora do perfil endotelial
impacto positivo sobre risco cardiovascular global
Esses efeitos são modulatórios, não diagnósticos, mas fazem parte do contexto clínico.
4. Eletrólitos e metabolismo
A beterraba contém potássio, mas em quantidades que raramente causam hipercalemia em indivíduos saudáveis.
⚠️ Atenção especial apenas para:
pacientes com doença renal crônica avançada
uso de diuréticos poupadores de potássio
Beterraba, esporte e exames: ponto de atenção
No contexto esportivo, o suco de beterraba passou a ser utilizado como estratégia nutricional por atletas e praticantes de atividade física devido à sua capacidade de melhorar o desempenho aeróbico. Isso ocorre porque o aumento da disponibilidade de óxido nítrico contribui para uma maior eficiência do uso de oxigênio pelos músculos, reduzindo o chamado custo de oxigênio durante o exercício.
Essas adaptações fisiológicas podem refletir diretamente na interpretação de alguns exames laboratoriais, especialmente aqueles relacionados ao esforço físico. Parâmetros como lactato, gasometria e marcadores cardiovasculares avaliados em testes funcionais podem apresentar resultados diferentes do habitual quando o consumo de beterraba ou de suplementos à base de nitrato não é considerado.
Por isso, é fundamental que o laboratório investigue o uso de suplementos alimentares na anamnese pré-analítica, garantindo uma leitura mais precisa dos resultados e evitando interpretações equivocadas.
Um detalhe curioso: beterraba e cor da urina
A betúria (urina avermelhada após consumo de beterraba) ocorre em parte da população.
Importante destacar:
não indica sangue na urina
não altera exames laboratoriais
pode causar preocupação desnecessária se não for explicada
Aqui, novamente, a educação laboratorial evita erros de interpretação.
Onde as análises clínicas entram nessa história
O papel do laboratório é:
contextualizar resultados dentro da alimentação e estilo de vida
evitar interpretações equivocadas
diferenciar modulação fisiológica de alteração patológica
orientar profissionais de saúde com dados completos
A beterraba é um ótimo exemplo de como alimentação funcional e exames laboratoriais dialogam.
Então: quando o alimento vira modulador fisiológico
A beterraba não “mascara” exames nem cria falsos resultados.
Ela modula vias fisiológicas reais, especialmente relacionadas ao óxido nítrico e à função vascular.
Entender esse mecanismo ajuda a:
interpretar exames com mais precisão
orientar pacientes de forma responsável
evitar alarmismos desnecessários
Ciência não é proibir alimentos, é entender como eles atuam no organismo.
✍️ Autor: Ariéu Azevedo Moraes
🔬 Biomédico | Fundador da Pipeta e Pesquisa
💡 Missão: Descomplicar as Análises Clínicas
Referências
Lundberg JO, Weitzberg E. Dietary nitrate, nitric oxide and cardiovascular health. Nat Rev Cardiol. 2009;6(8):473–484.
Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19156143/Kapil V, Khambata RS, Robertson A, Caulfield MJ, Ahluwalia A. Dietary nitrate provides sustained blood pressure lowering in hypertensive patients. Hypertension. 2015;65(2):320–327.
Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24815456/Webb AJ, Patel N, Loukogeorgakis S, Okorie M, Aboud Z, Misra S, et al. Acute blood pressure lowering, vasoprotective, and antiplatelet properties of dietary nitrate via bioconversion to nitrite. Hypertension. 2008;51(3):784–790.
Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17056735/Hobbs DA, George TW, Lovegrove JA. Effects of dietary nitrate on blood pressure and endothelial function: a review of human intervention studies. Nutr Res Rev. 2013;26(2):210–222.
Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23470299/Jones AM, Thompson C, Wylie LJ, Vanhatalo A. Dietary nitrate and physical performance. Annu Rev Nutr. 2018;38:303–328.
Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29792019/
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