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Quando usar soro ou plasma: guia prático para o laboratório de análises clínicas

Aprenda quando usar soro ou plasma nos exames laboratoriais, entenda as diferenças entre os dois tipos de amostra, as vantagens de cada um e em quais situações o fabricante exige um tipo específico para garantir resultados confiáveis.

COLETA E PREPARO

Ariéu Azevedo Moraes

1/5/20269 min ler

Quando usar soro ou plasma: guia prático para o laboratório

A cena é conhecida: chega uma bateria de exames, o pedido menciona “bioquímica + coagulograma + hormônios”, o paciente já foi embora e alguém pergunta:

“Dá pra fazer tudo desse tubo aqui… ou era soro pra uns e plasma pra outros?”

Saber quando usar soro ou plasma não é só um detalhe técnico: influencia tempo de liberação, estabilidade dos analitos, risco de interferências e até a segurança clínica da decisão que vem depois do laudo.

Este texto é um guia prático para organizar o raciocínio:

  • o que diferencia soro de plasma;

  • em quais situações cada um funciona melhor;

  • por que alguns exames aceitam os dois e outros exigem um tipo específico de amostra.

Relembrando o básico: o que são soro e plasma?

Do ponto de vista do laboratório:

  • Plasma é a parte líquida do sangue quando a coagulação foi impedida com um anticoagulante (EDTA, citrato, heparina, etc.). Depois da centrifugação, o plasma fica em cima, com fibrinogênio e fatores de coagulação preservados.

  • Soro é a parte líquida do sangue depois que ele coagula. O coágulo retém fibrina, plaquetas e parte das células; após a centrifugação, o líquido sobrenadante é o soro, sem fibrinogênio e com fatores de coagulação consumidos.

Ou seja: a diferença não é só semântica. O caminho até chegar à amostra pronta muda a composição do material, inclusive em metabólitos, mediadores inflamatórios e outros analitos relevantes.

Tabela explicativa nos cards.

Vantagens práticas de cada tipo de amostra

Por que o soro virou “padrão” histórico?

Durante muitos anos, o soro foi a amostra de escolha para grande parte dos exames de química clínica e imunologia. Motivos:

  • facilidade de obtenção;

  • ausência de anticoagulantes que pudessem interferir em reações;

  • tradição dos métodos mais antigos validados em soro.

Além disso, como o fibrinogênio e parte da cascata de coagulação ficam retidos no coágulo, o soro costuma apresentar menos interferência de fibrina residual quando o tempo de coagulação é respeitado.

Por que o plasma vem ganhando espaço?

Com o avanço da automação e a pressão por turnaround time (TAT) menor, muitos laboratórios passaram a avaliar o uso de plasma heparinizado para diversos testes de química clínica:

  • o plasma pode ser centrifugado logo após a coleta;

  • não é preciso esperar 30–60 minutos para coagular;

  • isso reduz atrasos, principalmente em pacientes que usam anticoagulantes ou em setores de emergência.

Estudos e experiências de laboratórios hospitalares mostram que o uso de plasma com gel separador substitui o soro em muitos painéis, com resultados equivalentes quando o método foi validado para esse tipo de amostra.

Por outro lado, o plasma é uma matriz mais complexa:

  • ainda contém fibrinogênio e plaquetas residuais se a centrifugação não for adequada;

  • a presença do anticoagulante (EDTA, citrato ou heparina) pode interferir em alguns analitos.

Por isso, a escolha não se resume a “gosto mais de soro ou de plasma”, mas sim a:

“Este método foi validado para qual tipo de amostra e qual anticoagulante?”

Quando usar soro: situações em que ele ainda é a melhor escolha

Em muitos laboratórios, o soro continua preferido em:

1. Imunoensaios e sorologias

Testes como anticorpos (IgG, IgM, autoanticorpos, alguns marcadores virais) frequentemente trazem na bula do fabricante a recomendação explícita de soro como tipo principal de amostra. Nesses casos:

  • trocar por plasma sem validação interna pode alterar sensibilidade e especificidade;

  • alguns anticoagulantes modificam o ambiente da reação (por pH, íons, proteínas ligantes).

Muitos fabricantes mencionam “serum or plasma (EDTA/heparin/citrate)” somente quando foram feitos estudos de equivalência entre as matrizes para aquele método específico.

2. Alguns testes de bioquímica e hormônios

Apesar de a tendência ser o uso crescente de plasma heparinizado em química clínica, há métodos em que:

  • a bula especifica somente soro;

  • ou a performance em plasma não foi suficientemente estudada.

Além disso, a presença de fibrinogênio e plaquetas no plasma pode influenciar algumas medições mais sensíveis, incluindo metabolômica, biomarcadores emergentes e mediadores inflamatórios, onde diferenças entre soro e plasma já foram demonstradas.

3. Quando o POP do laboratório exige soro

Muitos POPs e validações locais foram construídos com base em soro como amostra padrão. Nesses casos, trocar a matriz implica:

  • revalidar faixas de referência;

  • checar viés entre os dois tipos de amostra;

  • ajustar controles internos.

Sem esse processo, a mudança pode gerar discrepâncias silenciosas entre resultados atuais e históricos.

Quando usar plasma: onde ele é praticamente obrigatório

1. Testes de coagulação: sempre plasma

Na área de coagulação, a escolha é clara:

  • utiliza-se plasma citratado, colhido em tubo azul com citrato de sódio na proporção correta (geralmente 1:9).

  • a maioria dos testes (TP, TTPa, fibrinogênio, fatores de coagulação, estudos de inibidores) exige plasma pobre em plaquetas, obtido por centrifugação rigorosa.

Diretrizes internacionais recomendam, para muitos testes de coagulação:

  • força g e tempo suficientes para atingir contagem residual de plaquetas < 10×10⁹/L;

  • em alguns casos (p. ex. anticoagulante lúpico, anti-Xa, estudos de mistura), até dupla centrifugação do plasma.

Usar soro no lugar de plasma não faz sentido nessa área, porque:

  • os fatores de coagulação já foram ativados/consumidos no processo de formação do coágulo;

  • o exame deixaria de refletir a cascata de coagulação em condições controladas.

Quer entender melhor o impacto do fibrinogênio nos exames de coagulação e na escolha de soro ou plasma?
Confira o artigo:
“Fibrinogênio: o que é, valores altos e baixos e interpretação no laboratório”

🧮 E para o dia a dia da bancada, use a PipetaCalc e facilite seus cálculos laboratoriais.

2. Gasometria e alguns exames urgentes

Em gasometria, bioquímica de urgência e UTIs, é comum o uso de:

  • sangue total heparinizado (para gasometria);

  • plasma heparinizado em alguns analisadores de bioquímica “point-of-care”.

Nesses cenários, o plasma ajuda a:

  • reduzir o tempo entre coleta e resultado;

  • minimizar problemas com amostras não coaguladas;

  • evitar fibrina em excesso em sistemas de alto fluxo, desde que a mistura com o anticoagulante seja adequada.

3. Muitos painéis de química clínica em rotina automatizada

Vários laboratórios de grande porte migraram para plasma heparina com gel como amostra padrão para grande parte dos testes de química clínica, sem prejuízo de desempenho analítico, desde que:

  • o método seja especificamente validado para esse tipo de amostra;

  • sejam definidos novos intervalos de referência, quando necessário;

  • o impacto de fibrinogênio e plaquetas residuais seja controlado por centrífugação adequada e gestão pré-analítica.

“Posso usar qualquer um?” – a armadilha do “serve soro ou plasma”

Às vezes a bula do reagente traz algo como:

Specimen: Serum or plasma (EDTA, heparin, citrate)
Isso costuma indicar que o fabricante:

  • testou a equivalência entre as matrizes;

  • não observou viés clinicamente relevante para aquele analito.

Mas isso não significa que soro e plasma sejam sempre intercambiáveis. Estudos de metabolômica e comparações sistemáticas mostram diferenças estatisticamente significativas em diversos analitos entre soro e diferentes tipos de plasma (EDTA, citrato, heparina).
Organismos como CLSI e grupos de especialistas reforçam que qualquer troca de tipo de amostra na rotina deve ser tratada como mudança de matriz, exigindo avaliação de viés, estabilidade e impacto clínico.

Em resumo:

“Serve soro ou plasma” só é verdade para aquele método quando isso está escrito na bula e quando o laboratório validou a sua realidade local.

Erros comuns relacionados a soro e plasma

Alguns problemas que você provavelmente já viu (ou ainda vai ver):

  • Coagulação incompleta no tubo de soro
    Centrifugar antes do tempo de coagulação gera fibrina residual, que entope agulhas de analisadores e pode aprisionar analitos, levando a resultados espúrios.

  • Uso de EDTA em exames que dependem de cálcio e magnésio
    EDTA quelante de Ca²⁺ e Mg²⁺ pode comprometer dosagens de enzimas dependentes desses íons, cálcio sérico/plasmático e outros ensaios relacionados.

  • Troca livre de soro por plasma (ou vice-versa) sem olhar a bula
    Mesmo quando a diferença numérica parece pequena, um viés sistemático pode deslocar o paciente de uma categoria de referência para outra.

  • Mistura inadequada após a coleta em tubo com anticoagulante
    Falhas na homogeneização levam à formação de microcoágulos no plasma, que também podem interferir em analisadores e testes de coagulação.

Ter isso descrito em POPs claros, com exemplos e fotos de amostras rejeitadas, ajuda a equipe a fixar o conceito na prática.

FAQ – perguntas que o laboratório escuta o tempo todo

1. Por que não usamos soro para testes de coagulação?

Porque no soro os fatores de coagulação já foram ativados e consumidos no processo de coagulação. Os testes precisam de plasma citratado, com os fatores ainda presentes, para avaliar a cascata em condições padronizadas.

2. Por que tantos laboratórios estão migrando para plasma heparinizado na bioquímica?

Principalmente por causa do tempo de resposta: o plasma pode ser centrifugado logo após a coleta, o que reduz atrasos e repetições de amostras parcialmente coaguladas. Quando o método é validado para plasma, os resultados se mantêm comparáveis e o fluxo fica mais eficiente.

3. Se o reagente aceita “soro ou plasma”, preciso me preocupar?

Sim. A recomendação da bula ajuda, mas o laboratório ainda deve verificar se, na sua realidade, não há viés clinicamente relevante entre uma matriz e outra, principalmente ao comparar resultados atuais com históricos em prontuário.

4. O que eu olho na prática para decidir entre soro e plasma?

Três pontos:
  1. Bula do reagente – qual tipo de amostra o fabricante validou?

  2. POP/Guia interno do laboratório – que matriz foi adotada como padrão?

  3. Cenário clínico e TAT – o tempo de coagulação do soro atrapalha a assistência naquele contexto?

Resumo: soro e plasma não são rivais, são ferramentas diferentes

Em vez de pensar em soro x plasma como uma “briga de preferências”, vale enxergar os dois como ferramentas complementares:

  • o soro ainda se encaixa muito bem em grande parte da bioquímica tradicional, hormônios e sorologias, especialmente quando o método foi desenvolvido com essa matriz em mente;

  • o plasma, em especial o citratado na coagulação e o heparinizado na urgência e em painéis de química, ajuda a ganhar tempo e padronizar processos, desde que a validação seja bem feita.

No fim, a pergunta-chave continua sendo:

“Este exame foi desenhado e validado para qual tipo de amostra?”

Responder isso com base em bula, POP e evidência científica protege o paciente, o laboratório e o profissional que assina o laudo.
Se você mantém um Guia de Exames interno, vale sempre destacar para cada exame:
tipo de amostra (soro ou plasma), anticoagulante, tubo, volume mínimo e principais interferências. Isso transforma uma dúvida de balcão em resposta rápida e segura.

Quer aprofundar ainda mais o raciocínio em coagulação e escolha de amostras no laboratório?
No blog Pipeta e Pesquisa eu separei um conteúdo exclusivo sobre o papel do fibrinogênio:

Leia também: “Fibrinogênio: o que é, valores altos e baixos e interpretação no laboratório”

E, para o dia a dia da bancada, você pode usar a PipetaCalc para apoiar a interpretação de exames e cálculos laboratoriais de forma rápida e organizada:

Acesse: PipetaCalc – calculadoras para quem vive o laboratório na prática

Ariéu Azevedo Moraes
Biomédico | Consultoria e Gestão em Laboratórios
Pipeta e Pesquisa — Análises Clínicas, Gestão e Inovação

Referências

  1. PLEBANI, M.; LIPPI, G. Serum or plasma? An old question looking for new answers. Clinical Chemistry and Laboratory Medicine, 57(8), 1127-1129, 2019. Disponível em: https://www.research.unipd.it/bitstream/11577/3334426/2/10.1515_cclm-2019-0719.pdf. (Pesquisa UNIPD)

  2. VIGNOLI, A. et al. Serum or Plasma (and Which Plasma), That Is the Question. Journal of Proteome Research, 21(5), 1120-1132, 2022. Disponível em: https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.jproteome.1c00935. (PMC)

  3. CAREY, R. N. et al. Chemistry Testing: Plasma vs. Serum in Dialysis Patients. Practical Laboratory Medicine, 5, 1-7, 2016. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5012485/. (PMC)

  4. KITCHEN, S. et al. International Council for Standardization in Haematology recommendations for laboratory measurement of coagulation. International Journal of Laboratory Hematology, 43(6), 1272-1292, 2021. (Wiley Online Library)

  5. ODDOZE, C. et al. Stability of 81 analytes in human whole blood, serum and plasma. Clinical Biochemistry, 45(6), 464-469, 2012. Disponível em: https://bevital.no/pdf_files/literature/oddozo_2012_cb_45_464.pdf. (High-Precision Metabolomics Services)

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